quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Uma estória

Os servos à espreita disparavam soluços quietos. Esmerados nas bancadas de labuta uniformemente preparados e vestidos, concentravam-se em seus talhes com instrumentos familiares, pois a “luta” prestigiosa não possuía as ferramentas necessárias ao trabalho, já que se decretara naquela oportunidade: “Os impostos serão boicotados e os gastos do povo serão reduzidos a emergências”, muito embora os bolsos desses mesmos estarem pomposos e felpudos.

Na realidade, ninguém mais sabia que se o que se decretara era a resposta para a condição de economia ou se a condição da economia era a resposta para o que se decretara e ainda se alguma coisa tinha de nexo causal com os afazeres diários de seu público.

Quando menos se esperava, a mulher bem vestida e quieta, aquela que chegará à pouco e já se fazia presente, como num pulo de gato, salta de sua poltrona barata e apregoa movimentos de leoa à sua expressão corporal, então o ar da sala selada com cristal bruto, para controlar toda e qualquer motivação à vadiagem, se mistura com o ar dos homens dominados e num acesso de raiva e ódio, aquela mulher, talvez menstruada, manifesta seu interior obscuro num grito hediondo e pálido que em sua cara caracterizava-se.

Todos pasmados olharam uns para os outros e logo se desvincularam do padrão comportamental de seus movimentos cotidianos e padronizados de linha de produção e interiorizaram aquela mágoa da mulher. Pode-se perceber imediatamente que aquelas pessoas trabalhavam juntas como num organismo vivo, já que ninguém calou-se frente aquela barbárie!

Num transito desenfreado e alucinado de passos minuciosos que aqueles decibéis amigdalos desencadearam pode-se notar uma aura de medo e angústia e uma vontade calada, muda e sem coragem de exteriorizar-se.

Alguns companheiros sem hesitar denotavam para com a vítima uma cooperação profunda através do compartilhamento de informações do sistema legislativo, alguns interiorizaram tanto a raiva da moça que se achavam mais esburgados que o alvo do arroto, o rapaz de cabelos enrolados que o recebera, depois do acontecido a ordem de talhar seus pêlos, como se a culpa de tudo isso fosse de sua aparência desleixada e socialista.

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